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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

An evening with Steven Wilson (que seja a primeira de muitas...)

Depois de ter perdido a última passagem dos Porcupine Tree por Portugal (em Almada, se a memória não me falha) nunca julguei possível que o projecto a solo de Steven Wilson viesse ao nosso país, apresentar-se a um público pouco numeroso e que não se encontra maioritariamente vocacionado para a mensagem de que o autor de "Insurgentes", "Grace for Drowning", "The Raven that refused to sing and others stories" ou "Hand.Cannot.Erase." é portador. Foi por isso com espanto e euforia que em Maio deste ano fiquei a saber que a digressão europeia da banda de Steven Wilson teria início precisamente em Lisboa.

Foram meses e meses de espera, alimentando expectativas. O concerto superou-as em absoluto. Steven Wilson é ímpar no que se refere à composição e interpretação, e os músicos de que se rodeia são a nata da nata da música actual. Dave Kilminster não ficou a dever nada a Guthrie Govan e o baterista Craig Blundell foi substituto à altura do grande Marco Minnemann, que começou ontem a sua digressão com Joe Satriani. Nick Beggs rula - no baixo, no stick e nos coros - e Adam Holzman é nas teclas a expressão perfeita da melancolia associada à visão wilsoniana da música e da vida.

O concerto pareceu pensado ao pormenor e o dispositivo de som montado na Sala Tejo da Meo Arena encheu a sala de uma forma competente. Wilson não facilita. De resto não se viram "selfies" nem figuras tristes na pequena multidão que foi ao Parque das Nações dizer "presente" e a regra foi o respeito do público pelo pedido expresso de Wilson: guardem os telefones móveis, oiçam e vejam o que aqui viemos trazer e esqueçam fotografias e vídeos para carregar nas redes sociais. Quem foi à Meo Arena sabia ao que ia e por isso o silêncio imperou, reverente, perante a qualidade esmagadora  do quintento em palco.

O conjunto de temas da setlist centrou-se naturalmente em "Hand.Cannot.Erase.", não fugindo muito aos outros tocados na primeira tour de divulgação do disco. E se não consigo apontar um ponto alto do concerto é porque Wilson e os seus músicos colocaram a fasquia no topo logo com "First Regret", mantendo-a lá em cima até à despedida com uma interpretação perfeita, emocional e arrebatadora de "The Raven That Refused to Sing". Pelo meio destaco a interpretação da faixa n.º1 do primeiro trabalho a solo de Wilson ("Insurgentes"), "Harmony Korine", uma das minhas preferidas, ou a fenomenal interpretação de "Lazarus".

Lisboa rendeu-se uma vez mais a Steven Wilson e o músico, dois encores depois, terá ficado com vontade de voltar um dia no futuro. A tour europeia arrancou da melhor forma e o que se espera é o regresso de Wilson - a solo ou com outro dos seus projectos - a Portugal. Haverá uma data livre até final do ano?


Setlist ("An evening with Steven Wilson", Lisboa - 15.09.2015):

Intro
First Regret
3 Years Older
Hand Cannot Erase
Perfect Life
Routine
Index
Home Invasion
Regret #9
Lazarus (Porcupine Tree)
Harmony Korine
Ancestral
Happy Returns
Ascendant Here On...

Encore:
Temporal
(Bass Communion song)
Watchmaker Intro Video
The Watchmaker
Sleep Together (Porcupine Tree)

Encore 2:
The Sound of Muzak (Porcupine Tree)
Open Car (Porcupine Tree song)
The Raven That Refused to Sing

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Recentemente um espectro tem-nos assombrado...

Surgiu mais um vídeo de promoção ao próximo álbum, que será posto à venda dentro de duas semanas, revelando o conteúdo físico da edição de luxo de Hand . Cannot . Erase. Sabia que teria um preço proibitivo, mas passou-me pela cabeça averiguar o seu valor e... mas quando fui ver: ESGOTADO! Vale a pena ver o vídeo. O design e o conteúdo tem surpresas muito interessantes.




Steven Wilson dá realmente muita importância a todo o pacote que envolve a produção de um álbum. Tenta manter o culto em redor à componente física - vinil, livro, caixa... -, indo muito além da criação da música, resistindo à sua mera digitalização. É pena a maioria de nós não ter possibilidades de obter uma obra de arte como esta edição de luxo, contudo, a boa notícia, é que pelo o que observo no vídeo de promoção, boa parte do seu conteúdo escrito encontra-se no site viral Hand Cannot Erase, que li há dias e continua a ser actualizado.

"Yesterday I found an old notebook of stories and poems I wrote when I was 9 or 10 years old"

Trata-se de um álbum conceptual, isto é, que tem um tema, neste caso, conta do início ao fim uma história. A história de uma mulher que se vai isolando, tornando-se progressivamente alheada do mundo, até que ninguém parece dar pela sua falta. Ponto importante na história é o surgimento de uma irmã da personagem principal, tornando-se grandes amigas, mas que se separam poucos meses depois de se conhecerem, e que a marca profundamente. Esta relação é, segundo esta crítica antecipada, elemento preponderante na história do álbum. A minha leitura dos posts no site viral apontam para o mesmo.

"Where do you go if you don’t belong anywhere?  If I wanted to run away then why come to the city?"

Por tudo o que já vi e ouvi sobre o próximo álbum a solo de Steven Wilson, para uma boa compreensão do conceito romantizado, recomendo a leitura do blog. Há situações da história que não revelei para não estragar o efeito surpresa. Boa leitura.

http://handcannoterase.com/

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

"Hand. Cannot. Erase."

When I was 13 I had a sister for 6 months.She arrived one February morning, pale and shellshocked, from past lives I could not imagine. She was 3 years older than me, but in no time we became friends.
We’d listen to her mix tapes; Dead Can Dance, Felt, This Mortal Coil…
She introduced me to her favourite books, gave me clothes, and my first cigarette.
Sometimes we would head down to Blackbirds moor to watch the barges on Grand Union in the twilight.
She said “The water has no memory”.
For a few months everything about our lives was perfect.
It was only us, we were inseparable.
Later that year my parents separated and my sister was rehoused with a family in Dollis Hill.
For a month I wanted to die and missed her every day.
But gradually she passed into another distant part of my memory.
Until I could no longer remember her face, her voice, even her name.



Quando em Janeiro de 2006 Steven Wilson lançou o albúm "Loss", do seu projecto "Bass Communion", dava à fiel comunidade de fãs do universo wilsoniano a notícia de que o tema da perda passaria a afirmar-se como elemento omnipresente nos discos que gravaria daí em diante, quer a solo, quer nos vários projectos em que participou e participa (Porcupine Tree, No Man, Blackfield, etc.). Wilson tinha então uma idade muito próxima daquela que tenho hoje, em acelerada aproximação dos 40.


Steven Wilson. Fotografia.


A ideia de perda volta a manifestar-se com evidente centralidade em "Hand. Cannot. Erase.", o seu quarto disco a solo que é lançado no final deste mês. O albúm conta a história de uma mulher solitária que vive numa grande cidade, e que certo dia desaparece sem que ninguém dê pela sua falta. Uma re-elaboração de "Luminol", a poderosa faixa que abre "The raven that refused to sing (and other stories)", disco que tem na ideia, no sentimento e na vivência da perda o seu elemento estruturante mais forte.

De "Hand. Cannot. Erase." conhecem-se já alguns pormenores e, oficialmente, "Perfect life", a quarta faixa do alinhamento. A personagem central da história do disco fala-nos suavemente aos ouvidos, contando a história do seu encontro e da sua vida com a irmã (nova re-elaboração de um tema do disco anterior, a faixa homónima "The raven that refused to sing"). Uma vida "perfeita" que, temo bem, se vá perdendo ao longo da narrativa, e que culmina com o desaparecimento (ignorado pelo mundo) da mulher.

O tempo voa, foge, Wilson escreveu sobre o fenómeno em "Time Flies", faixa dos Porcupine Tree do disco "The incident". Nela, uma vez mais, a ideia de uma vida perfeita, uma idade de ouro e um tempo antigo, estilhaçado pelo tempo e pelos indicidentes da vida ("I was born in '67/The year of Sgt. Pepper/And Are You Experienced?/Into a suburb of heaven/Yeah, it should've been forever/It all seems to make so much sense"...). A perda é uma circunstância da vida, não há coleccionismo que a resolva. "Index", tema incluído no albúm "Grace for Drowning", refere-o de forma sublime.

A expectativa é grande, enorme. "Hand. Cannot. Erase" poderá ser em definitivo a afirmação de Wilson como um compositor de primeírissima água, um escritor de obras sonoras com princípio, meio e fim - albúns conceptuais reflectidos e bem escritos - capazes de abordar com assinalável profundidade filosófica o mundo que as gera. Wilson é, nesse sentido, um verdadeiro compositor "de intervenção".

Para quando uma banda sonora, Senhor Wilson?